Neurose de Domingo
Sílvia Baptista
Um podcast que olha para a vida com os olhos da Psicanálise.
Um podcast que olha para a vida com os olhos da Psicanálise.
Eucaliptos: quando o grupo pensa por nós
Episódios
Há uma semana que há tendas no Rossio. A crise da habitação é real e é urgente. E, no entanto, o que se vê na praça são bandeiras que nada têm a ver com rendas, palavras de revolução e uma estátua pintada, limpa e pintada outra vez. Há temas que funcionam como eucaliptos: crescem depressa, tapam tudo e, à volta deles, nada mais cresce. Quando entram numa conversa, a conversa deixa de ser sobre o que era. Neste episódio, olho para as acampadas com o olhar da psicanálise. Não falo da habitação, falo do que acontece às pessoas quando se juntam em grupo. Com Freud, em Psicologia das massas e análise do eu (1921), e com Bion, que viu nos grupos a necessidade de um inimigo. Falo da causa que passa a ser identidade, e da crítica que passa a ser sentida como ataque. E falo também da minha tribo, porque pertencer é uma necessidade, e é aí que mora o perigo.
Quem já perdeu um animal conhece esta frase e sabe o que é chorar às escondidas porque a dor parece não caber em lado nenhum. Neste episódio falo da Pipa, a minha primeira cadela, que viveu comigo catorze anos, e do luto que demorei cinco anos a fazer. A partir dessa história, pergunto porque é que a morte de um animal dói tanto e porque é que tão poucos à nossa volta o reconhecem. Para quem perdeu um animal, há pouco ou há muitos anos. E para quem quer saber o que dizer a alguém que o perdeu.
Neste episódio respondo a uma carta da Liliana, psicóloga numa casa de acolhimento há vinte anos. Entre as perguntas que me envia, há uma que vem de uma jovem de 17 anos que cresceu em instituições: «Gostei de pessoas que foram embora e me esqueceram. […] Sei que ainda posso ser feliz, mas a minha infância já foi. Que conselho me daria?» A partir daí, falamos sobre o que acontece quando aprendemos demasiado cedo que as pessoas podem desaparecer, sobre a construção de vínculos em novas famílias, sobre quando uma criança pode precisar de acompanhamento psicológico, o humor dentro da terapia e o contacto entre pacientes e terapeutas fora das sessões. Uma carta sobre aquilo que fica em nós depois de alguém partir e a possibilidade de uma ausência não significar esquecimento.
Há uma idade a partir da qual muitas mulheres dizem começar a sentir-se invisíveis. Não falam apenas de deixar de ser olhadas ou desejadas, mas de um mundo que parece começar a escolhê-las menos, a representá-las menos, a imaginá-las menos. Eu tenho 52 anos e não me sinto invisível. Pelo contrário, sinto-me cada vez mais visível para mim própria. Neste episódio do Neurose de Domingo, parto desta diferença para pensar o que acontece quando envelhecemos e o olhar do mundo muda; e quanto daquilo que sabemos sobre nós próprias foi construído nesse olhar.
Neste episódio, uma mãe escreve porque a filha de 16 anos mudou completamente desde que soube que vai ter um irmão. O pai da rapariga foi embora quando ela era bebé. Durante anos, ficaram as duas. Agora, a mãe está grávida de um homem que está presente. O que pode o nascimento de alguém fazer à história de quem já cá estava? Às vezes, um acontecimento novo não muda apenas o presente. Obriga-nos a voltar ao passado e a olhar de outra maneira para aquilo que nos aconteceu. É a partir desta e de outras mensagens que pensamos o novo episódio do Neurose de Domingo.
O Mounjaro mudou o modo como me alimento e alterou o olhar para o meu corpo. Comecei a tomá-lo para perder peso, mas, mais de um ano depois, há aspetos da compulsão, desejo e escolha que dificilmente teria percebido sem esta experiência. Perdi quase 20 quilos, mas foi o que desapareceu com eles que me fez querer gravar este episódio.
É uma das explicações mais comuns para aquilo que somos: a infância, a mãe, o pai, aquilo que fizeram, aquilo que faltou. E muitas vezes essa explicação é verdadeira. Mas perceber onde começou uma dificuldade não explica necessariamente por que razão continuamos a repeti-la tantos anos depois. Neste episódio do Neurose de Domingo, falamos sobre o lugar que damos aos pais na explicação da nossa vida, sobre a diferença entre culpa e responsabilidade e sobre uma pergunta difícil: o que acontece quando já sabemos de onde vem, mas continuamos a fazer o mesmo?
Em Janeiro de 2023, Lindsey Clancy matou os três filhos e tentou suicidar-se. Desde então, o seu caso tem sido contado de muitas maneiras: como crime, como tragédia familiar, como história de doença mental e como um dos casos mais perturbadores ligados ao período pós-parto. Neste episódio de Neurose de Domingo, não procuro decidir quem é Lindsey Clancy. Interessa-me outra pergunta: o que acontece quando uma mulher pede ajuda, recebe tratamento e, ainda assim, alguma coisa continua a não ser vista? Um episódio sobre psicose pós-parto, responsabilidade, maternidade e os limites daquilo que conseguimos compreender quando olhamos para um ato extremo.
Até parecia mal eu estar aqui a perorar sobre dinheiro e não falar um pouco das razões que me fizeram trazer este tema. Também seu sou assolada, em parte, pelas representações menos benignas que o dinheiro traz. Ora, escutem.
A matéria-prima que enforma as nossas relações amorosas assente em duas premissas primordiais: a experiência que temos com os nossos pais; e a experiência que temos de os ver em relação um com o outro. Partindo deste princípio, de que modo o arranjo financeiro que organizamos em casal é algo nosso ou. uma herança que trazemos de casa? E de que modo o dinheiro se mantém um tabu relacional? É ouvir.
O que tem a autonomia a ver com a sabotagem financeira? De que modo perpetuamos a infância com escolhas que nos afectam negativamente? Quais as emoções mais preponderantes que estão na base de alguns comportamentos de autosabotagem?
O dinheiro não tem apenas um valor pecuniário. Além de ser um objeto de troca, ele está coberto de simbolismo e o modo como lidamos com ele está enraizado na nossa infância. Que representação interna temos do dinheiro? Como lidamos com ele? Ouçam e depois digam coisas.
Chegámos ao final da primeira temporada deste podcast. Fui muito feliz a gravar estes 10 episódios sobre a maternidade e espero ter contribuído para que se possa pensar a maternidade não apenas de um ponto de vista funcional, mas sobretudo a partir do vínculo e da ligação mãe-filho. Até breve.
Joana Zagury é advogada de família e dos direitos das crianças e lida quotidianamente com os cenários psiquicamente debilitantes que um divórcio ou uma separação podem gerar, a começar pela alienação parental. Quando um casal não consegue ultrapassar a mágoa ou ressentimento de uma relação terminada, entram em campo os filhos, um campo de batalha que, não raras vezes, acaba nos tribunais, com maiores consequências para as crianças. Ouçam, que vale bem a pena.
Por que razão as madrastas têm tão má fama no nosso entendimento e léxico comum? A psicanálise tem uma explicação (que está no episódio...) mas, esta semana, falei com a responsável do Somos Madrastas Portugal, uma página que tem como objetivo ressignificar a palavra madrasta e apoiar as mulheres que, mais frágeis, procuram quem, como a Inês, conheça as dificuldades desta outra forma de cuidado.
A psicóloga, psicoterapeuta e psicanalista Joana Espírito Santo dá-nos conta de aspectos importantíssimos da relação da mãe com os seu bebé, mas também com a criança e adolescente que será. A navegar entre o limite e a liberdade, ser mãe e pai é desafiante, complexo e um tema no qual vale a pena pensar. E sentir...
Será que existe um instinto materno? É uma imposição ou uma escolha? Como podemos pensar e ressignificar a maternidade a partir de outras premissas? Elisabeth Badinter (e eu assino por baixo) diz que o instinto não existe, que a maternidade é uma construção. Será? Ouçam e digam de vossa justiça.
A Inês é psiquiatra e minha amiga. Confio nela e vejo-lhe uma competência e um colo raros, tanto para amigos como para pacientes. Comprar-lhe-ia todos os carros usados, porque quando ela fala tem a aquela certeza própria de quem não tem certezas, de quem sabe que os absolutos não existem, e, também por isso, a noção de que a medicina é mais do que ciência. Neste episódio falamos de Depressão Pós-Parto e, entre outros temas, de como é importante não normalizar o sofrimento e pedir ajuda. Espero que gostem.
Poucos temas são tão idealizados quanto a maternidade. Talvez por isso seja difícil aceitar e assumir que ter filhos também pode ser qualquer coisa que transtorna e traz perturbação. Neste mundo fantasiado, onde tudo parece ter apenas uma cor, Ana conversa connosco sobre a dureza e a angústia de ser mãe e partilha ainda como a perda precoce do seu pai impacta clara e fortemente nesta dimensão da sua vida.
O Complexo da Mãe Morta é um conceito criado pelo psicanalista André Green para designar a depressão vazia que, segundo ele, se instala quando o vínculo mãe (cuidadora) e filhos assenta nessa incapacidade de a primeira poder servir de amparo, vivendo uma vida funcional mas uma quase morte psíquica. O que acontece quando não conseguimos fazer um luto de uma mãe que existiu mas que nunca foi nossa? Qual a diferença entre a depressão clássica e a depressão vazia? Será a morte o mais tenebroso da existência ou o vazio pode parecer mais ameaçador?
O conceito de narcisismo é como a pasta medicinal Couto, anda na boca de toda a gente (entendedores entenderão). Mas será que toda a falta materna é narcísica? Qual a diferença entre a patologia e o desamparo? E os filhos, idealizando os pais, não serão também eles narcisistas? E o que é ser narcisista? Vamos conversar.
A atriz Inês Castel-Branco sempre quis ter uma família grande mas algumas perdas gestacionais cortaram o ímpeto ao desejo. Depois de uma gestação que não deixa boas memórias, e da fragilidade da relação com o pai do seu filho, nasceu o Simão, hoje um adolescente. Como gerir esta dificuldade em ter mais filhos? Em que tipo de mãe e mulher se tornou Inês? Como é viver sozinha com o filho, quase desde o início? E de que modo a sua rede de apoio de amigas, também elas atrizes, lhe salvou a vida tantas vezes?